Sobrevivente de tentativa de feminicídio que está escondida no PR perde formatura, mas envia carta à cerimônia: 'Ele não venceu'
09/03/2026
(Foto: Reprodução) Carta enviada por Sayonara para ser lida na cerimônia de formatura, em Apucarana.
Unespar
Sayonara Doraci da Silva sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em fevereiro deste ano, em Apucarana, no norte do Paraná. Mais de um mês depois do crime, o ex-companheiro dela, Ademar Augusto Crepe, permanece foragido. Neste período, a vítima se formou em Administração na Universidade Estadual do Paraná (Unespar).
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Escondida para se manter em segurança, Sayonara não pôde receber o diploma de forma presencial durante a cerimônia de formatura, mas se fez presente por meio de uma carta.
No texto, Sayonara lamenta a ausência e relata que o ex-companheiro não foi mais localizado desde a data do crime (10 de fevereiro). Ela também recorda que, mesmo sob o medo causado pela violência, venceu a faculdade.
"Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver", escreveu na carta.
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A carta foi lida pela professora Carine Maria Senger antes da entrega dos diplomas. Em entrevista ao g1, a docente contou que, em 18 anos na instituição, aquela foi a primeira vez que vivenciou uma situação semelhante.
A professora recebeu o texto algumas horas antes da cerimônia, que aconteceu no dia 27 de fevereiro, e lembra do "sentimento contraditório", como classificou, de tristeza pela ausência da aluna e honra por poder representá-la. Carine conheceu Sayonara no curso e foi coordenadora de projetos de pesquisa e extensão dos quais a vítima participou.
"Inclusive cheguei a pensar que talvez não conseguisse fazer a leitura durante a cerimônia. Foi um momento de muita emoção", disse ao g1.
A Unespar publicou uma nota de apoio a Sayonara, citando que a mulher rompeu um ciclo de violência violência e buscou, "por meio da educação, a construção de um projeto de vida autônomo".
O g1 tenta localizar a defesa de Ademar Augusto Crepe.
Leia a carta escrita por Sayonara na íntegra:
Gostaria muito que estas palavras fossem ditas por mim, olhando nos olhos de cada colega, professor e familiar. Mas hoje, minha voz chega até vocês através deste papel, porque a minha presença física me foi roubada.
Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça. Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha Iivre. Minha ausência nesta festa não é uma escolha, é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade.
Mas quero que saibam: ele não venceu.
Este diploma que carrega o meu nome é a prova de que, mesmo sob a sombra do medo e da violência, eu não parei. Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver.
Aos meus colegas, peço que celebrem também por mim. Que o meu lugar vazio hoje – representado pela professora Carine – sirva de lembrança de que a nossa profissão deve ajudar a construir um mundo onde nenhuma mulher precise faltar à própria vitória para garantir o direito de continuar viva.
Eu venci a faculdade.
Eu venci a silêncio.
E, junto com meus filhos, continuarei vencendo todos os dias.
O meu corpo não está aí, mas a minha conquista é gigante – e ninguém pode tirá-la de mim.
Estudar não é rebeldia.
Estudar é um ato de resistência.
Viva a universidade pública.
Viva a UNESPAR.
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O crime
Sayonara tem uma medida protetiva contra o marido. No dia 10 de fevereiro, o carro que ela dirigia foi interceptado por uma caminhonete, em Apucarana. Com o impacto, o carro em que Sayonara estava com o filho foi jogado contra um poste de iluminação pública. A estrutura de concreto caiu sobre o veículo.
A vítima e as testemunhas contaram à Polícia Militar (PM-PR) que Ademar Augusto Crepe, de 58 anos, estava dirigindo a caminhonete.
"Relatou ainda que, na sequência, o autor apontou uma arma de fogo em sua direção, ameaçando matá-la, e que, segundo seu relato, o autor chegou a acionar o gatilho de um revólver, porém, por motivos alheios, não houve disparo", consta no boletim de ocorrência.
Em seguida, Ademar fugiu do local. Sayonara e o filho passaram por atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Apucarana.
A Polícia Civil solicitou a prisão preventiva de Ademar, que foi aceita pela Justiça no dia 13 de fevereiro. Entretanto, até a última atualização desta reportagem, ele permanece foragido. Veja como denunciar:
Ademar é considerado foragido por tentativa de feminicídio.
PC-PR
Feminicídios no Paraná
Segundo o relatório do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o Paraná registrou 87 feminicídios em 2025. Durante o ano de 2024, 109 mulheres foram assassinadas em crimes no contexto de violência doméstica e ódio ao gênero feminino.
A Central de Atendimento à Mulher para denúncias está disponível 24 horas. O telefone é 180.
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