Mãe associa morte do filho às apostas online e promete transformar dor em luta contra o vício para ajudar outras pessoas: 'Silêncio é perturbador'

  • 18/07/2026
(Foto: Reprodução)
Mãe associa morte do filho às apostas online e promete transformar dor em luta O perfume, o óculos de sol, a agenda, o celular, a blusa que Lucas Donola da Silva gostava de usar. Tudo guardado em uma caixa de papelão, menos a dor e a angústia de perder um filho. Afinal, dor e angústia não cabem em uma caixa, não importa o tamanho dela. Há menos de 30 dias, a empresária Daysi Donola vive a dor do luto. Moradora de Jundiaí (SP), ela atribui às apostas online a transformação que viu no filho nos últimos anos e a tragédia que tirou Lucas de casa. Agora, ela quer transformar a tristeza profunda em luta, alerta e, quem sabe, no renascimento de outras pessoas que vivem a mesma situação em que o filho esteve. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Lucas, de Jundiaí (SP), amava os animais e era muito tranquilo Arquivo Pessoal Transformação silenciosa Ao g1, Daisy relata que os primeiros sinais das apostas apareceram ainda em 2023. Antes disso, Lucas era descrito como um jovem completamente diferente do que se tornou nos últimos meses de vida. Antes das apostas, que ele conheceu na casa de um amigo, Lucas era amoroso, educado, generoso e muito ligado à família e aos animais. Gostava de cuidar da aparência, cortava o cabelo e fazia a barba com frequência, e era querido em todos os lugares por onde passou, inclusive nas empresas em que trabalhou. Com o avanço da dependência, os pais começaram a notar mudanças cada vez mais profundas na rotina do filho. "Nós começamos a ver uma transformação muito grande. O Lucas passou a não dormir mais direito, ficava manhã, tarde, noite e principalmente as madrugadas jogando", contou a mãe. A alimentação também foi afetada. De acordo com ela, Lucas passou a fazer apenas uma refeição por dia. Quando perdia dinheiro nas apostas, o desespero tomava conta dele. Usava o próprio dinheiro e, quando ele acabava, pedia emprestado a familiares, amigos e até pessoas que tinha acabado de conhecer, inclusive no trabalho. Lucas chegou a contrair dívidas, deixou de cuidar da aparência e emagreceu bastante, e foi se isolando cada vez mais da família. Segundo a mãe, entre o fim de 2025 e maio de 2026 a distância ficou ainda mais evidente. "Só veio aumentando, aumentando, aumentando. Os sinais foram horríveis. Nos últimos meses o Lucas já estava mais agressivo, principalmente com palavras, não se continha mais. O Lucas ficava extremamente agitado, já não conseguia mais trabalhar. Ele trabalhava como operador de empilhadeira em várias empresas de logística aqui, estava entrando em um trabalho, saindo, pulando para um outro, a ponto de pegar todas as rescisões, pedir para sair do trabalho, para pegar as rescisões, para fazer as apostas, pedindo dinheiro para todo mundo, fazendo vários empréstimos, pedindo para amigos. Quando entrava numa empresa ele já pedia até para pessoas que ele não conhecia." "Nós sentíamos que não reconhecíamos mais o nosso filho. Ele deixou de participar de momentos em família, inclusive não passou o último Natal e o último Réveillon conosco", relatou. Ela afirma ter tentado diferentes caminhos para tirar Lucas do vício. Tentou até retirar o celular do jovem, já que era por ele que acessava as plataformas de apostas. Também buscou acompanhamento psiquiátrico para o filho. Segundo Daysi, porém, ela enfrentou dificuldades em fazer com que Lucas fizesse o tratamento. "Tinha muita resistência em aceitar as terapias e não conseguia seguir o tratamento como era recomendado pelos profissionais", disse. Ainda de acordo com o relato, quando perdia nas apostas, Lucas apresentava agressividade verbal, mas nunca chegou a ser agressivo fisicamente com a família. LEIA TAMBÉM: Família de menino com doença rara participa de audiência sobre medicamento de R$ 17 milhões em Brasília Famílias de Sorocaba reforçam como doação de órgãos pode salvar vidas; cidade tem índice de recusa abaixo da média nacional Uma caixa de lembranças Mão fez caixa de lembranças após morte do filho, em Jundiaí (SP) Arquivo Pessoal Um dia, ao chegar de uma viagem ao aeroporto, onde tinha ido levar a filha, Daysi encontrou o corpo de Lucas, que tinha tirado a própria vida. Depois da morte do filho, a família decidiu deixar a casa onde tudo aconteceu e se mudar para outro bairro da mesma cidade. Não se sentiam mais acolhidos na antiga casa. Antes, a mãe separou alguns pertences de Lucas para guardar. "Eu fiz uma caixa com alguns pertences dele, inclusive com as coisinhas de quando ele nasceu, a pulseirinha do hospital, a primeira roupinha. Tudo eu tenho dele bem guardado, tudo numa caixa", contou. Entre os itens guardados também estão três blusas, os óculos que ele usava com frequência e o perfume, que a mãe diz manter sempre por perto. Sobre a mudança de bairro, ela conta que o processo ainda é doloroso. "Ainda foi muito difícil de eu sair, parecia que eu estava deixando Lucas lá. Está muito difícil de eu aceitar que eu não tenho mais o meu filho aqui, é muito difícil", desabafou. O que resta é a saudade Um mês após a perda, a rotina da família ainda é marcada pela ausência do jovem. "Não existe um dia em que eu não chore. As madrugadas e o fim da tarde, quando a noite começa a chegar, são os momentos mais difíceis para mim", relatou a mãe. Ela diz que a presença de Lucas fazia falta em cada canto da casa. "O Lucas enchia a casa de vida, está faltando um pedaço de mim. Ele era brincalhão, fazia barulho na casa, e hoje o silêncio é perturbador", afirmou. Segundo ela, o apoio da filha, Gabriela, tem sido fundamental neste momento. Luto em luta A mãe afirma que quer transformar a experiência em alerta para outras famílias que possam estar enfrentando uma situação parecida com a que Lucas viveu antes de morrer. "Se Deus me der forças, eu pretendo transformar a dor da perda do meu filho em um trabalho de conscientização. Se eu puder contribuir com palestras, conversar com famílias, jovens, empresas, escolas, clínicas de recuperação ou participar de campanhas de prevenção, farei isso com todo o meu coração." "Não sei ainda qual será o formato, porque tudo ainda é muito recente. Mas se a história do Lucas puder salvar uma vida ou impedir que outra família passe pelo que a minha está vivendo, já terá valido a pena." Ela comenta ainda que ainda não se vê como uma ativista, mas como uma mãe que perdeu o filho e que decidiu não se calar. "Se essa caminhada fizer de mim uma voz de conscientização contra os danos causados pela dependência em apostas online, eu a seguirei com todo o meu coração. Quero transformar a dor da perda do Lucas em um alerta para que outras famílias não passem pelo que a minha está vivendo." Daysi completa. "Eu nunca imaginei que um dia estaria falando sobre esse assunto. Trocaria qualquer luta pela chance de ter meu filho de volta." Dopamina e saúde pública A neurologista Ana Paula Gomes, do Pilar Hospital, de Curitiba (PR), lembra que o vício ou o transtorno do jogo é reconhecido pela medicina como doença. "Compartilha muitas características com a dependência de álcool e outras drogas lícitas e ilícitas. A pessoa perde o controle sobre o comportamento, continua apostando, apesar de ter prejuízo financeiro, prejuízo familiar, prejuízo emocional e acaba tendo grande dificuldade para parar com isso sozinha. Como que isso acontece? As apostas, elas vão ativar no cérebro o sistema de recompensa, liberando a dopamina, que é um neurotransmissor que tá ligado à sensação de prazer e expectativa." Entretanto, a neurologista lembra que a incerteza do resultado e a possibilidade de ganhar fazem com que o cérebro busque repetir essa experiência. "E com o tempo, a pessoa vai ficando com mais necessidade de apostar e cada vez vai precisar mais sentir essa emoção que ela sentia no começo. Tomando então isso como se fosse um comportamento compulsivo. E aí, a gente tem sinais de alerta para isso." A médica elenca os principais sinais. A lista é a seguinte: Pensar em apostas durante a maior parte do dia; Apostar valores cada vez maiores; Não conseguir parar mesmo tentando; Mentir sobre as apostas para si mesmo ou para as outras pessoas; Fazer dívidas; Usar dinheiro destinado às contas para gastar nas apostas; Ficar irritado; Ficar ansioso quando não consegue jogar; e Começar a ter prejuízo no dia a dia, no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos com as pessoas. "E como reverter? O tratamento é possível, tem bons resultados, incluindo psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo-comportamental, um acompanhamento rigoroso com psiquiatra quando há ansiedade, depressão ou outras doenças associadas", diz. Ela lembra que, em alguns casos, há a possibilidade de uso de medicamentos para reduzir a compulsão, além da indicação da pessoa com vício para participar de grupos de apoio. Ainda conforme ela, o caso é de saúde pública. "A gente considera como um caso de saúde pública. Esse aumento dessas apostas online tem levado a um crescimento gigantesco de casos de dependências, endividamentos, conflitos familiares, perda de produtividade, ansiedade, depressão, muitas vezes até tentativas de suicídio, que são situações mais graves. Então, esse problema deixou de ser apenas um problema individual e passou a ser um desafio de saúde para todo mundo. Exige prevenção, educação, regulamentação e acesso a um tratamento especializado." Ana Paula Gomes, neurologista, fala sobre vício em apostas online Divulgação Casas de apostas no Brasil Segundo um estudo do Banco Central do Brasil, de 2024, eram estimados no país cerca de 24 milhões de pessoas físicas que participaram de jogos de azar e apostas, realizando ao menos uma transferência via Pix no período analisado. O perfil dos apostadores mostra que a maioria tem entre 20 e 30 anos, embora, conforme o estudo, as apostas sejam realizadas por indivíduos de diferentes faixas etárias. "O valor médio mensal das transferências aumenta conforme a idade: para os mais jovens, o valor gira em torno de R$ 100 por mês, enquanto para os mais velhos o valor ultrapassa R$ 3 mil por mês, de acordo com os dados de agosto de 2024", diz o documento. Os valores mensais movimentados no período variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. Outro documento do Ministério da Fazenda aponta que em 2025, 109 casas de apostas online estavam registradas no Brasil. Em junho de 2026, o número já ultrapassava 180. Jundiaí (SP): Mãe associa morte do filho às apostas online e promete transformar dor em luta contra o vício para ajudar outras pessoas Arquivo Pessoal Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/07/18/mae-associa-morte-do-filho-as-apostas-online-e-promete-transformar-dor-em-luta-contra-o-vicio-para-ajudar-outras-pessoas-silencio-e-perturbador.ghtml


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