'É o único tempo que tenho': passageiros transformam viagens de metrô em momentos de leitura

  • 25/07/2026
(Foto: Reprodução)
Leitores transformam viagens de metrô em momentos de leitura em SP Sentados lado a lado em um banco do metrô da Linha 2-Verde, em São Paulo, a artista e professora Mariel Bonzamota, de 35 anos, e o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29, compartilham uma cena cada vez mais rara nos vagões: os dois estão concentrados em um livro. Ela lê "A Neblina", romance escrito por seu aluno Luís de Oliveira. Ele relê "Nada Pode me Ferir", autobiografia do ex-militar norte-americano David Goggins, livro que conheceu depois de perder uma das pernas, em 2023. Para os dois, o trajeto não é apenas um caminho entre casa e trabalho. É um intervalo reservado para a leitura — e até um incentivo antes de ir para a academia. "Ler esse livro foi um recurso para me dar um ânimo, sabe? Foi como se algo me dissesse 'bora para cima', porque esse livro é de motivação, treinamentos insanos que ele [David Goggins] fazia. E ele superou tudo isso com problemas de coração, o cara foi 'para cima'", diz Eduardo. A artista e professora Mariel Bonzamota, de 35 anos, e o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29. João de Mari/g1 No dia 14 de julho, a cena se repetiu em diferentes linhas do metrô de São Paulo. Foi para entender esse hábito que o g1 percorreu estações e perguntou aos passageiros uma questão simples: “O que você está lendo?” (veja o vídeo acima). As respostas revelam uma mistura de gêneros entre romances, mangás, suspense policial, biografias, livros de educação financeira e até contos indianos. Mas há algo em comum entre quase todos os leitores: o metrô é um dos poucos momentos do dia em que conseguem abrir um livro. “Este é o tempo que eu tenho para ler”, resume a enfermeira Tamires Moraes, de 38 anos, enquanto se apoia em uma barra de ferro do metrô. Ela faz diariamente o trajeto entre as estações Saúde, na Zona Sul, e a Trianon-Masp, na região central. São cerca de 40 minutos por dia dentro do transporte público — praticamente todo o tempo que consegue dedicar aos livros. Com uma bebê pequena em casa e uma rotina de trabalho intensa, Tamires conta que precisou adaptar o hábito. Antes de ser mãe, assinava um clube de livros. Hoje, com o fim da licença-maternidade, tem cinco exemplares esperando na estante para serem lidos. Com uma bebê pequena em casa e uma rotina de trabalho intensa, Tamires conta que precisou adaptar o hábito da leitura. Nicoly Santos/g1 No metrô, porém, ela consegue manter a leitura. Naquele dia, segurava o título "Ecos da Floresta", da escritora norte-americana Liz Moore. O livro, que ela guarda em uma capa de proteção feita com tecido, foi eleito o melhor suspense de 2025 pelo jornal "The New York Times". O hábito encontrado nos vagões contrasta com um cenário de queda no número de leitores no país. Dados de 2024 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que os não leitores passaram a ser maioria: mais da metade dos brasileiros não havia lido nenhum livro sequer naquele ano (veja mais abaixo). O único tempo para ler A escritora e doutoranda em literatura Bruna Paiva conhece bem esse tipo de cena. Ela ficou conhecida nas redes sociais ao abordar passageiros no metrô do Rio de Janeiro — e depois também em São Paulo — com uma pergunta que virou marca do trabalho dela: “O que você está lendo e para onde você está indo?”. A ideia nasceu justamente da curiosidade durante os próprios deslocamentos. "Sempre andei muito de transporte público e sempre li muito no metrô. Eu sou fofoqueira. Quando via alguém lendo, ficava tentando descobrir o que era o livro", conta ao g1. Segundo ela, existe uma percepção equivocada de que pessoas que leem no transporte público querem chamar atenção. Na maioria das vezes, diz, é o contrário: elas estão apenas aproveitando um espaço de tempo que sobrou na rotina. O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, sabe bem disso. Ele conta que também encaixa a leitura nos horários do metrô, principalmente na volta para casa, no início da tarde, quando os vagões costumam ser mais vazios. Naquele vagão, ele consegue um lugar encostado ao lado da porta que, segundo ele, é "o mais confortável" para quando se está em pé. Ele lê "Novembro, 9", da escritora norte-americana Colleen Hoover. “Na ida é muito cheio. Na volta eu consigo sentar, ou encostar em algum canto, e ler melhor”, explica. Kauã faz parte de uma geração que descobriu muitos livros pelas redes sociais, especialmente pelo chamado BookTok, comunidade de leitores no TikTok. Colleen Hoover é um dos nomes que mais ganhou popularidade nesse movimento. Ao mesmo tempo, a autora também recebe críticas de leitores e críticos literários, que apontam que alguns romances abordam temas como violência doméstica e abuso de forma romantizada ou superficial. Ainda assim, seus livros aparecem entre os mais lembrados pelos brasileiros na pesquisa Retratos da Leitura, de 2024. O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, também encaixa a leitura nos horários do metrô. Nicoly Santos/g1 Para a escritora e doutoranda em literatura, o fenômeno Colleen Hoover faz parte de um movimento maior. Ela afirma que as redes sociais, especialmente desde a pandemia, ajudaram a aproximar jovens dos livros e dos eventos literários. "Acho o máximo o que isso tem construído entre os jovens. Um desejo por ler literatura, um desejo por conhecer novos autores, um desejo por estar nos eventos literários. É inegavelmente impulsionado pelo movimento das redes sociais desde a pandemia", afirma. Ela cita como exemplo o público da Bienal do Livro. "Você vê jovem chorando porque encontrou o autor favorito. Isso é muito legal. Parece um 'Rock in Rio' dos livros". Bruna conta que começou a produzir conteúdo na internet para divulgar os próprios livros, mas acabou encontrando um público interessado em recomendações de leitura. Segundo ela, as redes sociais passaram a desempenhar um papel importante na formação de novos leitores. "Eu acho o máximo ver a internet divulgando livros e leitura. Mesmo que a gente compre mais livros do que lê, estimular as pessoas a comprar livros é algo muito positivo." Uma biblioteca em movimento Morador de Itaquera, na Zona Leste, o jornalista Fernando Piovezam começou a registrar esse comportamento antes de ele ganhar força nas redes sociais. Desde 2016, ele fotografa passageiros lendo em vagões de metrô e trem para o projeto “Vi Você Lendo”, criado durante seus deslocamentos diários entre a Zona Leste e o Centro. A ideia, segundo ele já explicou nas redes sociais, era homenagear pessoas que mantêm o hábito mesmo diante das dificuldades do transporte público. O acervo reúne centenas de imagens de passageiros lendo livros físicos, em Kindle ou até pelo celular. Nas redes sociais, uma das partes mais interessantes é justamente a variedade dos títulos encontrados nos vagões. Stephen King, Colleen Hoover, livros religiosos, poesia, autoajuda, clássicos e até o aclamado "A Mais Recôndida Memória dos Homens", do senegalês Mohamed Mbougar Sarr, aparecem lado a lado. Leitores brasileiros Em 2024, pela primeira vez desde o início da série histórica da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, os não leitores passaram a ser maioria no país. Mais da metade dos brasileiros não havia lido nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento divulgado em 2024. O país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Ao mesmo tempo, pesquisas da Câmara Brasileira do Livro apontam crescimento do consumo entre jovens de 18 a 34 anos, impulsionado por redes sociais e comunidades de leitores. Para a pesquisadora Bruna Paiva, o metrô mostra justamente que o debate sobre leitura não pode ficar restrito ao tipo de livro escolhido. Na visão dela, romances populares, best-sellers e clássicos cumprem papéis diferentes na formação de leitores. “Tem gente que lê Dostoiévski e tem gente que lê best-seller. Ler também é para ser divertido. Às vezes você lê para descansar a cabeça, às vezes para conhecer uma cultura diferente. Uma coisa não exclui a outra.”

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/07/25/e-o-unico-tempo-que-tenho-passageiros-transformam-viagens-de-metro-em-momentos-de-leitura.ghtml


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